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"É MUITO MÁ IDÉIA APONTAR O DEDO UNS AOS OUTROS"

Segundo o embaixador Declan O’Donovan, “é muito pouco sábio dizer que é só a Irlanda com problemas e que Portugal está salvo, ou que é Portugal e não a Espanha, ou que antes disso era a Grécia e não Portugal”.

E acrescentou: “É muito importante que não apontemos o dedo, dizendo que a Irlanda não é tão má como a Grécia, que Portugal não está tão mal como a Irlanda, ou que Espanha não está tão mal como Portugal, ou que a Itália não está tão mal como a Espanha. Porque na situação que estamos a viver agora, os mercados internacionais podem não distinguir. É uma situação muito, muito volátil, desde a falência do Lehman Brothers”,.

CRISE PORTUGUESA: MAIS GRAVE QUE A IRLANDESA?

O embaixador manifestou um acordo genérico com uma das declarações do primeiro-ministro luxemburgês e presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, que distinguira a situação portuguesa da irlandesa, atestando a boa saúde da banca portuguesa: “Se alguém como o senhor Juncker diz algo sobre a totalidade dos 27, não está a dizer mal ou bem, está dizer que é uma situação diferente. O que é compreensível e é correcto dizer. A situação portuguesa é diferente da situação irlandesa”.

Mas logo concretizou um desacordo, bem mais importante: “A situação irlandesa é um problema dos bancos, a situação portuguesa é um problema de défice estrutural, que remonta à década de 90”.

Sem se pronunciar sobre a solidez dos bancos portugueses por contraste com a dos irlandeses, o embaixador não deixou de sublinhar os ritmos de crescimento invejáveis alcançados durante mais de uma década pela economia do seu país, por contraste com os problemas estruturais da economia portuguesa: “Tivemos um período de crescimento sem precedentes na década de 90 e início dos anos 2000, quando a economia estava a crescer 8 por cento ou mais por ano, mas isso começou a desaparecer em 2003/2004”.

A explicação que desenvolveu sobre o calcanhar de Aquiles daquele processo de crescimento pode também ser altamente instrutiva sobre as perspectivas portuguesas: “A economia continuou a crescer, principalmente devido ao desenvolvimento do mercado imobiliário e da especulação imobiliária e este foi o principal problema. Uma política de irresponsabilidade na concessão de crédito pelos bancos”.

Criava-se, por outro lado, um círculo vicioso: “Cada vez mais nos encontrávamos numa situação em que os bancos confiavam nas imobiliárias para pagar os seus empréstimos – que eram gigantescos e, em alguns casos, atingiam os milhões de euros – e nas pessoas para comprar as casas a preços bastante altos, para depois lhes fornecerem os empréstimos e as imobiliárias terem dinheiro para pagar os seus empréstimos”.

O PROBLEMA DA INCONTINÊNCIA VERBAL

Ao abrir-se a crise, a proliferação de declarações de políticos que disparam em todas as direcções tornou-se, segundo O’Donovan, parte do problema e obstáculo à procura de soluções: “Tudo o que digamos uns sobre os outros, Portugal sobre a Irlanda, a Irlanda sobre Portugal, pode ser significativo. Claramente o que os Alemães disseram, apoiados pelos franceses, teve consequências muito sérias nos mercados internacionais, e assim, teve consequências muito importantes para nós”.

“A Alemanha tem um ponto de vista, que é olhar para o futuro. Podemos ver mérito nesse ponto de vista, mas naquela altura em particular, declarações daquele tipo, que não diferenciavam entre obrigacionistas futuros e presentes, tiveram muito provavelmente um grande efeito nos mercados”, acrescentou.

Também em Portugal se tem manifestado a mesma tendência para a incontinência verbal: “Aqui, por exemplo, Passos Coelho quer mostrar que o PSD ainda é um partido que quer cortar na despesa, e não um partido que queira aumentar os impostos. Os socialistas querem dizer que têm de cortar, mas também têm de aumentar impostos. É assim que a democracia funciona, por isso é inevitável que tenhamos tensões, e que algumas coisas que os políticos dizem venham a ter um efeito negativo, a única coisa que podemos dizer é: por favor tenham muito cuidado, especialmente nesta altura. Qualquer coisa que se diga, pode ter um efeito negativo nos mercados”.

NINGUÉM ESTÁ A SALVO

Na mesma entrevista, o embaixador irlandês lembra que esta “não é uma questão apenas da Irlanda, é uma questão dos mercados internacionais olharem para além da Irlanda. Nos últimos meses, Portugal tem sido visto como um próximo candidato [a receber ajuda financeira externa] e discute-se ainda a Espanha e a Itália”.

O’Donovan reconheceu que a Irlanda se encontra neste momento numa situação particularmente delicada: “Claro que há diferenças de nível. Uma coisa é cooperar com a comissão relativamente ao orçamento, algo que temos feito há vários anos, e outra coisa é ter a Comissão Europeia, o BCE e o FMI a chegar com responsáveis. Tudo parece muito dramático”. Mas tão-pouco as grandes potências, disse, estão a salvo de, um dia, se tornarem igualmente alvo da especulação: “Se formos para as grandes economias, então temos um problema muito sério para a zona euro, e problema muito sério é uma expressão simpática”.

E apela à relfexão dos responsáveis internacionais, que pressionam a Irlanda para aumentar a tributação do capital: “Não há provas de que se a Irlanda aumentar o seu imposto, que as pessoas que lá investem, substancialmente dos Estados Unidos, fossem investir noutro local dentro da União Europeia. (…) Não, é muito mais provável que procurem fora. Desculpem-me, mas podem dar um tiro no pé de toda a União Europeia”.

Fonte: RTP Portugal

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